sexta-feira, 21 de junho de 2013

OPINIÃO: A hora é de Eduardo Campos? Ou a repercussão eleitoral dos protestos pelo Brasil afora


A hora é de Eduardo Campos? Ou a repercussão eleitoral dos protestos pelo Brasil afora

Otávio Luiz Machado*

É fato que tivemos a primeira vez em que as redes sociais tiveram um grau de utilização intensa com muitos resultados positivos no Brasil, tanto na mobilização para os protestos de indignação de quase todo o povo, como na difusão imediata de informações, imagens e opiniões praticamente disponíveis em tempo real.
A repercussão eleitoral dos protestos já emitem fortes sinais de que poderemos ter nas próximas eleições presidenciais uma mudança significativa das chances de quem aparentemente poderá vencer o pleito com mais facilidade, cujo semelhante resultado foi percebido em diversos países do globo em momentos recentes.
O processo civilizatório do País entrou nessa semana num estágio mais avançado, pois aquilo que chamamos de brasilidade (a condição de sermos brasileiros) ganhou novos sentidos. Numa situação em que no momento da seleção brasileira, quando pararia o Brasil, o que se viu foi um movimento popular chamar mais atenção de todo o País, invertendo a lógica perversa que nos persegue: País do futebol, do jeitinho brasileiro, do marasmo e da indolência do povo eternamente enraizadas na nossa cultura.
O País não será o mesmo ao terminarmos essa semana. Só tínhamos condições de cantar em coro o hino nacional quando o time do Brasil entrava em campo e isso era televisionado em rede nacional, mas não em tantos espaços públicos por todo o país num mesmo dia e em locais que não possuem um formato de uma construção arredondada, com uma estrutura de arquibancadas e cujo atrativo são pessoas correndo atrás de uma bola.
Não é exagerado dizer que foram os supostamente vândalos – reprimidos preventivamente pela PM de São Paulo sem nenhuma ação inicial por parte deles – que mudaram a cara do País, nem tampouco dizer que em poucos dias conseguimos fazer o que as políticas públicas de segurança até hoje não conseguiram: o início da humanização da polícia. A cena de policiais utilizando apetrechos brancos chamando a atenção para o diálogo e a melhor convivência humana e distribuindo rosas ou panfletos pedindo paz em diversas cidades do País foi marcante, como assim o foi o impacto das notícias da imprensa que aparentemente apontam o começo do fim do divórcio da maioria da imprensa com os movimentos reivindicatórios.
Era difícil prever que tantos estigmatizados como vândalos ou os ditos radicais espalhados pelo País– os que se arvoraram no enfrentamento com a PM ou para o quebra-quebra – puderam detonar aquilo que faltava muito entre nós: a vergonha na cara. Que nos levava ao conformismo e ao silêncio.
Nesse contexto não é desprezível o argumento de que a hora de Eduardo Campos é agora, o que significa dizer que a conjuntura política mais uma vez torna-se favorável a quem vem investindo muita propaganda para passar a imagem de que ele é parte de uma gestão pública que faz acontecer com benefícios mais eficazes à população, o que tem sido a principal reivindicação dos milhões de brasileiros que foram às ruas no dia de ontem (20 de junho de 2013) denunciar publicamente o desperdício e a incompetência do poder público nas suas mais diversas instâncias pelo Brasil.
         O que tivemos no Brasil nessa semana faz parte de um acontecimento histórico singular. Nunca tantos movimentos organizados sem uma estrutura oficial levaram inúmeras pessoas para ruas ao mesmo tempo (e nas mais diversas partes do País). Nem tiveram uma adesão popular recorde num curto intervalo desde sua deflagração, o que fez com que sindicatos e entidades estudantis constrangidos aderissem irrestritamente e imediatamente.
         O que se vive com os protestos é uma variável fundamental que impactará nas eleições de 2014. Algo que não pode ser desprezado. Tentarei puxar um fio para que possa leva-lo à situação de um único pré-candidato, considerando que sempre acompanhamos um analista encasulado usando espaços preciosos como blogs (e até em jornais impressos) de forma obsessiva, repetida ou sistemática para “bater” em Eduardo Campos, dando seu “parecer” como se Eduardo não tivesse condições e nem merecesse disputar a presidência da República. Se é uma “análise” geralmente vinda em textos claramente escritos com muita pressa, que coloca argumentos vindos de como ele quer que as coisas sejam sem nenhuma base de reflexão que traga uma cientificidade mínima, também é do mesmo cidadão que anda choramingando por aí que não encontra espaço na imprensa para colocar críticas contra Eduardo Campos, se sentindo abafado, censurado, podado.
É preciso ter responsabilidade ao se escrever um texto, pois o único que devemos satisfação nesse momento é o leitor, que merece dados minimamente precisos. Um texto divulgado não merece servir única e exclusivamente como criação de plateia usada para aplaudir e encher a bola do autor. Nem sempre conseguimos atender a todos os requisitos necessários para a produção do texto ou conseguimos suprir a maioria das expectativas daqueles que nos lê. O que vale mesmo é o debate aprofundado e sincero em cima do que escrevemos.
É preciso pelo menos tentar alcançar um equilíbrio naquilo que tentamos passar aos que nos lêem, principalmente num momento em que ainda não estão muito claras as nossas impressões, considerando que vivenciamos os fatos na sua plena e conturbada ocorrência. Mas eu me arrisco nesse momento a correlacionar tudo que vivenciamos com as reais possibilidades de uma candidatura Eduardo Campos à presidência.
         Se calcularmos que cerca de 5 ou 10 milhões de brasileiros e brasileiras (fiz um cálculo a partir dos informes que recebi de todo o Brasil vindos dos próprios movimentos) ganharam os mais diversos espaços públicos para protestar justamente pelo melhor oferecimento de serviços públicos (transporte, educação, saúde, principalmente) e a melhor aplicação dos recursos públicos, é real que 5% da população brasileira esteve presencialmente num ato de profunda indignação contra o sistema político brasileiro, mas que afeta diferencialmente mais uns do que outros no dia de ontem (21/06/2013).
         Se ainda consideramos que parcelas significativas dos 95% que não estiveram ligados diretamente nos protestos tiveram acesso às horas e horas da transmissão ao vivo pela Rede Globo ou redes sociais mostrando a indignação por todo o País, o que se vê é que certamente eles foram contemplados, assim mais uma vez afetando diferencialmente mais uns do que outros que ocupam cargos públicos a frente de municípios, Estados e o próprio governo federal.
         O prefeito mais prejudicado nisso tudo é sem dúvida alguma o Fernando Haddad (de São Paulo), que abaixou a passagem depois de afirmar diversas vezes que não abaixaria de jeito algum. Que realmente nem chegou a dialogar com os participantes dos protestos antes de dar o seu “não”, tendo o seu “sim” referendado só quando o movimento se tornava vitorioso nas ruas.
         O governador mais prejudicado é o do Rio de Janeiro, que mesmo tendo recuado no valor da passagem (em parceria com o prefeito Eduardo Paes), também não está oferecendo nenhuma perspectiva da melhoria do oferecimento da qualidade do serviço público (que é péssimo e caro por lá), sem contar que a recente privatização do Maracanã (após os investimentos vultosos do poder público) vai de desencontro ao que está sendo reivindicado em todo o País. O governador só fez a já conhecida equação: socializar os prejuízos com a população simultaneamente com o patrocínio da apropriação privada dos lucros
         A soma de toda essa indignação atinge em cheio o governo federal, cuja mandatária não está correspondendo à imagem da competente gestora público construída desde o governo Lula, da figura intransigente com a corrupção que aparecia no início do atual mandato presidencial ou da gestora firme para a contenção das despesas pública. A figura acuada da Presidenta após a tríplice rajada de vaias na abertura da Copa das Confederações mais uma vez foi percebida pela maioria absoluta dos brasileiros, ainda.
         Se em última instância o governo Dilma (e do PT) herda toda a indignação dos protestos, no caso de Pernambuco não existe grande associação direta dos temas reivindicados ao seu governo mesmo após a ocupação de cem mil pessoas nas ruas de Recife.
A figura de Eduardo Campos está numa zona de conforto extraordinária. Ele pode ser de situação e oposição quando lhe convém, não sofre muitos arranhões nesse momento de comoção nacional, recicla práticas da velha política transformando-as em algo novíssimi e ainda capitaliza nisso tudo com a imagem do gestor que “entrega” com mais qualidade (e com menos tempo) o que a população pernambucana aguarda.
No tema do momento Eduardo também possui muito a seu favor. Se inicialmente o discurso do governo federal de quem iria financiar a copa seria a iniciativa privada através de parcerias público-privado, o que vimos é o financiamento público acima algumas vezes do valor inicialmente traçado, com as benesses federais, seja através de financiamentos de pai para filho para as empresas, seja através de recursos e infra-estrutura para o luxuoso desfrute dos camarotes “especiais” para autoridades e convidados. Algo que ainda só servirá até a entrega do troféu ao time ganhador na final da Copa de 2014, ficando sem grande uso no dia seguinte.
         Se o governador escolheu um local relativamente longe (mas com inúmeras possibilidades de novas construções no seu entorno) como São Lourenço da Mata para o estádio de Pernambuco (traçando uma estratégia para que depois da Copa o estádio e seu entorno fosse utilizado em parte para a Universidade de Pernambuco e empreendimentos imobiliários), já mostra aí um diferencial que será muito capitalizado caso venha a ser candidato a presidente da República, pois vai dar a impressão do financiamento privado com ganho para o setor público, em suma, um negócio vantajoso para o Estado de Pernambuco.
A privatização a rodo de Dilma em aeroportos, rodovias e portos no segundo semestre de 2013 para elevar o superávit primário vai gerar um clima de que para se ter um serviço que deveria ser oferecido pelo poder público o cidadão tem que tirar do bolso para pagar. Se quer andar numa rodovia com o mínimo de segurança, só pagando pedágio para as concessionárias; se quer um atendimento melhor no serviço de saúde, só pagando um bom plano de saúde; se quer ter mais conforto nos aeroportos, só pagando taxas mais elevadas.
É incrível os investimentos privados atraídos pelo governador de Pernambuco e a sua defesa na continuidade da estatização do Porto de Suape, contribuindo para se passar a imagem de que ele consegue o possível e o desejado: o privado deve entrar em áreas que efetivamente possam produzir e não se aproveitar do público para se beneficiar pura e simplesmente.
Na área econômica, com a inflação descontrolada, o baixo crescimento econômico e a redução do nível de empregos, o que se verá imediatamente é a queda das condições objetivas para uma disputa com grandes possibilidades de vitória por parte da Presidenta Dilma, o que mais uma vez beneficia o governador Eduardo Campos.
Com a possibilidade do governo Dilma entrar em frangalhos nos próximos capítulos, o desembarque do governador Eduardo Campos da aliança de sustentação oficial poderá até ser antecipado para que não seja respingada essa situação ao seu nome, quando também antecipará a sucessão presidencial ainda mais, alimentando a dificuldade de alianças em torno de Dilma e patrocinando mais deserções na tão instável base aliada.
Por duas vezes Eduardo Campos aproveitou as dificuldades do PT para cacifar candidaturas do seu PSB: a eleição para governador de 2006 (quando ele próprio foi o candidato) e a eleição para a Prefeitura do Recife em 2012 (com a candidatura de Geraldo Júlio). Em 2006 o candidato do PT foi bombardeado pelo suposto envolvimento na chamada Máfia dos Vampiros. Em 2012 rompeu a aliança com o PT e elegeu seu candidato após as conturbadas prévias petistas.
Na terceira oportunidade que aparece no horizonte de Eduardo Campos para se ter o PT como a variável importante para a sua vitória mesmo que indiretamente, a situação atual lhe favorece. Quem aposta nele?


*É pesquisador, escritor e documentarista. E-mail: otaviomachado3@yahoo.com.br

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A preocupação do sistema é com a solidariedade que os protestos despertam (Por Otávio Luiz Machado)

A preocupação do sistema é com a solidariedade que os protestos despertam 
Otávio Luiz Machado*
        
O dia 17 de junho de 2013 marcou o Brasil não somente pelas cenas de parcelas significativas de cidadãos tomando as ruas reivindicando direitos e fazendo muito barulho. Mas pelo significado que tais protestos impingem ao cenário urbano complexo, na contraposição direta ao discurso oficial dos governantes e na mobilização de parcelas significativas de concidadãos que até então se encontravam apáticos, desprotegidos, desiludidos e calados.
         O que inicialmente focava no preço absurdo das passagens de onibus  ganhou novas reivindicações e pautas ampliadas, como a não-aprovação da PEC-37 (que limita o trabalho do Ministério Público), o não-uso de recursos federais para o financiamento da Copa, o aumento de verbas públicas para as áreas de educação e saúde, o fim da violência contra os movimentos sociais, para o direito de protestar sem violência, etc
         Em Recife, na Avenida Conde da Boa Vista e em outras vias, por exemplo, o que se viu foi um “esquenta” para o grande protesto marcado para o dia 20 de junho de 2013, dando assim um indicativo de que a solidariedade aos protestos em outros Estados se transforma em adesão para a construção de protestos locais em seu próprio território antenados com as reivindicações gerais que acontecem pelo Brasil afora. Várias cidades do exterior também tiveram protestos em apoio aos protestos no Brasil no mesmo dia.
         Do norte ao sul do País, com alcance praticamente à metade dos Estados da federação, o que se viu nas ruas foram legiões de cidadãos que ganharam as ruas e praças em protestos para tratar de temas que diretamente atingiam suas cidades ou o País como um todo, mas também para prestar solidariedade aos participantes de protestos da capital paulista, que sofreram uma das mais duras repressões (mesmo sob a vigência de um sistema democrático em grande avanço nos dias anteriores).
         O perigo para o sistema não está nas ruas fechadas, nos prédios públicos “atacados” e na imagem arranhada para muitas autoridades públicas. Está na solidariedade que tais protestos geram no conjunto da sociedade, o que impõe incertezas quanto ao grau de ruptura ou de estragos que podem trazer ao status quo com novas adesões e maior alcance dos protestos, sendo de difícil controle e sem possibilidades de previsão sobre quais estruturas solidificadas poderão ser abaladas ou derrubadas. Muito menos a quem se pode atingir em cheio primeiro, seja o sistema econômico, seja o sistema político, o sistema dos oligopólios internacionais ou os sistemas de comunicação de massa  controlados por uma minoria.
         Nos tempos controversos da Guerra Fria, o que mais afligia os cabeças dos países que orbitavam nos dois pólos era o perigo da chamada solidariedade mundial, o que exigia a mobilização de recursos financeiros infindáveis para quebrar qualquer possibilidade da construção dessa solidariedade universal entre os povos.
         Os protestos nos últimos tempos ganharam novos atores, diferentes estratégias de mobilização e de organização e construíram pautas e temas de multiplicidades, enquanto a repressão a eles não inovou em nada: é a mesma truculência, o mesmo discurso autoritário em defesa da força em detrimento ao diálogo e o mesmo engodo de que uma minoria impõe à maioria os seus desejos e intentos.
         O desgaste no sistema político é tão enorme, que cada medida tomada por seus representantes no sentido de se segurar ou de se equilibrar nesses momentos de tensão torna-se um combustível de qualidade superiormente inflamável.
         O sistema político pode aparentemente manter diferenças nas suas composições internas, mas quando a situação coloca em risco todo o seu sistema, o que se vê são alianças e acordos entre todos que são sua parte. No caso da democracia brasileira, PT, PMDB, PSDB, PSD, PSB, PC do B, etc., nessas horas falam a mesma língua, se posicionam com os instrumentos políticos em comum e costumam não compartilhar dos interesses maiores do País, porque a tendência é de proteção e de blindagem dos próprios interesses.  
O  desconforto não está nos alvos de insatisfação que  já estão indicados nos protestos, mas nos que podem ressurgir e demonstrar que o ponto de saturação  de parcelas significativas dos brasileiras finalmente aconteceu.   Por isso que os protestos já são vitoriosos, porque deixaram o sistema político sem saber o que fazer, ficando sem rumo e em compasso de espera.
O fato é que a repressão não segurou por muito tempo as mudanças das sociedades. O próximo caminho escolhido  é que vai dar o tom da vitória dos protestos, o ritmo da mudança, o atestado de que novas agendas serão abertas e guiadas pelo total poder dos cidadãos e cidadãs de nosso País.

*É pesquisador, escritor, educador e documentarista. E-mail: otaviomachado3@yahoo.com.br

A preocupação do sistema é com a solidariedade que os protestos despertam (Por Otávio Luiz Machado)


A preocupação do sistema é com a solidariedade que os protestos despertam 
Otávio Luiz Machado*
        
O dia 17 de junho de 2013 marcou o Brasil não somente pelas cenas de parcelas significativas de cidadãos tomando as ruas reivindicando direitos e fazendo muito barulho. Mas pelo significado que tais protestos impingem ao cenário urbano complexo, na contraposição direta ao discurso oficial dos governantes e na mobilização de parcelas significativas de concidadãos que até então se encontravam apáticos, desprotegidos, desiludidos e calados.
         O que inicialmente focava no preço absurdo das passagens de onibus  ganhou novas reivindicações e pautas ampliadas, como a não-aprovação da PEC-37 (que limita o trabalho do Ministério Público), o não-uso de recursos federais para o financiamento da Copa, o aumento de verbas públicas para as áreas de educação e saúde, o fim da violência contra os movimentos sociais, para o direito de protestar sem violência, etc
         Em Recife, na Avenida Conde da Boa Vista e em outras vias, por exemplo, o que se viu foi um “esquenta” para o grande protesto marcado para o dia 20 de junho de 2013, dando assim um indicativo de que a solidariedade aos protestos em outros Estados se transforma em adesão para a construção de protestos locais em seu próprio território antenados com as reivindicações gerais que acontecem pelo Brasil afora. Várias cidades do exterior também tiveram protestos em apoio aos protestos no Brasil no mesmo dia.
         Do norte ao sul do País, com alcance praticamente à metade dos Estados da federação, o que se viu nas ruas foram legiões de cidadãos que ganharam as ruas e praças em protestos para tratar de temas que diretamente atingiam suas cidades ou o País como um todo, mas também para prestar solidariedade aos participantes de protestos da capital paulista, que sofreram uma das mais duras repressões (mesmo sob a vigência de um sistema democrático em grande avanço nos dias anteriores).
         O perigo para o sistema não está nas ruas fechadas, nos prédios públicos “atacados” e na imagem arranhada para muitas autoridades públicas. Está na solidariedade que tais protestos geram no conjunto da sociedade, o que impõe incertezas quanto ao grau de ruptura ou de estragos que podem trazer ao status quo com novas adesões e maior alcance dos protestos, sendo de difícil controle e sem possibilidades de previsão sobre quais estruturas solidificadas poderão ser abaladas ou derrubadas. Muito menos a quem se pode atingir em cheio primeiro, seja o sistema econômico, seja o sistema político, o sistema dos oligopólios internacionais ou os sistemas de comunicação de massa  controlados por uma minoria.
         Nos tempos controversos da Guerra Fria, o que mais afligia os cabeças dos países que orbitavam nos dois pólos era o perigo da chamada solidariedade mundial, o que exigia a mobilização de recursos financeiros infindáveis para quebrar qualquer possibilidade da construção dessa solidariedade universal entre os povos.
         Os protestos nos últimos tempos ganharam novos atores, diferentes estratégias de mobilização e de organização e construíram pautas e temas de multiplicidades, enquanto a repressão a eles não inovou em nada: é a mesma truculência, o mesmo discurso autoritário em defesa da força em detrimento ao diálogo e o mesmo engodo de que uma minoria impõe à maioria os seus desejos e intentos.
         O desgaste no sistema político é tão enorme, que cada medida tomada por seus representantes no sentido de se segurar ou de se equilibrar nesses momentos de tensão torna-se um combustível de qualidade superiormente inflamável.
         O sistema político pode aparentemente manter diferenças nas suas composições internas, mas quando a situação coloca em risco todo o seu sistema, o que se vê são alianças e acordos entre todos que são sua parte. No caso da democracia brasileira, PT, PMDB, PSDB, PSD, PSB, PC do B, etc., nessas horas falam a mesma língua, se posicionam com os instrumentos políticos em comum e costumam não compartilhar dos interesses maiores do País, porque a tendência é de proteção e de blindagem dos próprios interesses.  
O  desconforto não está nos alvos de insatisfação que  já estão indicados nos protestos, mas nos que podem ressurgir e demonstrar que o ponto de saturação  de parcelas significativas dos brasileiras finalmente aconteceu.   Por isso que os protestos já são vitoriosos, porque deixaram o sistema político sem saber o que fazer, ficando sem rumo e em compasso de espera.
O fato é que a repressão não segurou por muito tempo as mudanças das sociedades. O próximo caminho escolhido  é que vai dar o tom da vitória dos protestos, o ritmo da mudança, o atestado de que novas agendas serão abertas e guiadas pelo total poder dos cidadãos e cidadãs de nosso País.

*É pesquisador, escritor, educador e documentarista. E-mail: otaviomachado3@yahoo.com.br

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

OPINIÃO: MATARAM UM ESTUDANTE QUE PODIA SER SEU PRÓPRIO IRMÃO, FILHO OU MESMO VOCÊ (Por Otávio Luiz Machado)





MATARAM UM ESTUDANTE QUE PODIA SER SEU PRÓPRIO IRMÃO, FILHO OU MESMO VOCÊ: OU QUANDO A POLÍTICA NÃO É VOLTADA AO CIDADÃO

Por Otávio Luiz Machado*

“A morte de cada homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti” (John Downe).

A perda de alguém sempre é traumática, principalmente quando esse alguém se vai sem que as pessoas saibam o que de fato aconteceu para que essa perda se concretizasse. O fenômeno do fim com a morte ou do início com a vida balizam a existência humana, sendo as experiências nesse interstício socialmente compreendidas representadas pelo que fizemos, tivemos, sonhamos, somos, construímos, compartilhamos e deixamos, que são marcas que não se apagam com tanta facilidade.



Mas toda a existência de uma pessoa tentou ser apagada, anulada e desmarcada na semana passada em Recife, porque mais uma vez a figura humana virou um prontuário redigido apressadamente, pois se ignorou questões importantes que fazem toda a diferença para os que contracenavam com um estudante negro e originário de setores desprivilegiados da sociedade, como é o caso do tratamento digno e humano para um ser humano que não é só osso e carne, e sim um sujeito histórico, um cidadão de direitos e alguém que é alguém para tantos outros.
O estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Raimundo Matias Dantas Neto (mais conhecido como Samambaia) entraria para a “estatística” dos afogamentos na Praia de Boa Viagem mesmo diante de tantas evidências de que ele foi na verdade assassinado. Um jovem de 25 anos, no último ano do curso de graduação, que começaria a ministrar aulas no próximo mês e seria o primeiro de sua família a ostentar um diploma de graduação universitária. Saiu de sua casa na periferia do Grande Recife para comprar um computador e não voltou mais vivo. No IML conseguiram apenas informar que sua morte foi por afogamento, embora ele tivesse as roupas rasgadas, escoriações pelo corpo e o seu cabelo todo recortado.
A música indicada acima tocou num ponto importante, que foi de tratar um ser humano como ninguém. De colocar um evidente caso de homicídio como “Zémicídio” (para aqueles ao qual o Estado trata como “Zé Ninguém”). 

Os agentes públicos não tiveram o mínimo interesse em gastar tempo, os equipamentos necessários e o material disponível financiado por tanta gente do povo para buscar identificar o que poderia ter realmente acontecido com o estudante Raimundo Matias. Era só mais um ou menos um, o que não fazia diferença alguma!
Tornou-se mais traumática ainda e é revoltante, quando o Estado que virou suas costas para algo que a priori teria o dever de zelar, como o direito à vida, à justiça, à verdade e à dignidade da pessoa humana, o que no caso do estudante Raimundo Matias (o Samambaia) foi negado tudo isso.
O Estado, quando imediatamente tratou o caso como afogamento e não como possível homicídio, também naturalizou a desigualdade social, os preconceitos, o ódio de classe e a invisibilidade do outro que vem de espaços disprivilegiados. Que pode ser percebida igualmente nas torturas dos adolescentes nos órgãos de ressocialização, no consumo do crack que infestou todo o território sem a devida atenção do Estado para a resolução desse problema, na violência crescente contra negros, mulheres e homossexuais que não sensibiliza os gestores públicos para se criar políticas públicas mais efetivas e arrojadas para o seu enfrentamento. É o mesmo Estado que permite os seus cidadãos utilizarem o transporte público AMONTOADOS diariamente, o que lembra os comboios nazistas transportando os judeus para os campos de concentração. E tantos outros exemplos de HUMILHAÇÃO sistemática dos cidadãos.
É possível que os agentes públicos envolvidos também quisessem interromper o aumento das estatísticas de homicídios, porque para eles não serão os negros das periferias que vão estragar a boa imagem do governo que espalha por todo canto que um novo Pernambuco surge porque o governador é gestor público eficiente, disciplinado, trabalhador, excelente articulador político e está deixando tudo às mil maravilhas.
O descaso explícito nesse caso por se tratar de um negro da periferia aponta que em outras circunstâncias poderiam até inventar um suposto “suicídio” ou um simples “acidente”, nunca um caso de omissão ou de ineficiência de uma política que desprotege as pessoas.
Quando estive presente ao velório e ao enterro do Samambaia pude ver nos olhos e rostos dos seus familiares o quanto o sentimento de cidadania dão muita luz mesmo nesse momento de intensa tristeza. Vi também nos olhos dos seus amigos e colegas muita disposição de lutar com a família de Samambaia para que a justiça seja feita. Vi no choro das crianças que acompanharam os últimos momentos da presença do corpo de Samambaia entre nós uma forte esperança de que no chão encharcado por tantas lágrimas irá brotar um castelo fortificado em nome da democracia, dos direitos humanos, da paz e da justiça social. 
Também pude conhecer nesses dias um pouco da família de Samambaia, da história de vida de todos e como seus valores éticos estão evidenciados naquilo que estão fazendo para devolver ao ente querido assassinado uma imagem pública como ela realmente é, que é a de um jovem esforçado, promissor, cidadão de bem e um amante da vida que foi assassinado por atos de extrema brutalidade. Na simultânea firmeza e fineza da movimentação da mão da irmã da Samambaia (quando escrevia os dados de nascimento, o nome completo e a data do enterro dele na massa de cimento recém colocada) percebi uma gente de fibra que não se entrega mesmo nos momentos mais difíceis e dolorosos, cuja capacidade de superação para enfrentar adversidades advém do amor à vida e aos seus.
         É importante dizer aos familiares, amigos e colegas que o caso de Samambaia não será esquecido tão cedo se depender de toda uma rede de colaboração que foi criada para exigir respostas convincentes para uma morte trágica cercada de tantos mistérios.
          Também não poderemos ficar somente no terreno da indignação, da revolta e da denúncia do caso. È preciso construir atividades que rompam a barreira de invisibilidade e de não-reconhecimento social a que tantos Raimundos estão submetidos sem medo, sem pudor e com disposição de enfrentar muitas incompreensões pelo caminho. Foi o que fizemos quando levamos adolescentes e jovens em conflito com a lei para se apresentar na abertura de um importante congresso que organizamos na UFPE em 2010 sobre juventudes (e tantas outras ações sobre a periferia), o que para alguns era pura perda de tempo por se tratar de pessoas incorrigíveis. Eles mostraram lados bons de sua existência.

Ali diante de autoridades e de tantas pessoas presentes à abertura eles puderam mostrar o seu valor se valorizando a si mesmos, o que gerou produção de cidadania. É preciso romper a lógica de que não é possível mudar as coisas e que não vale a pena lutar porque não tem mais jeito.
É complicado mudar toda uma sociedade utilizando-se do argumento de que já estou fazendo a minha parte e que os outros façam a sua, porque “nada é suficiente desde que o Todo seja deficiente” (Aldous Huxley). Várias instituições que podem mobilizar todo um conjunto de ideias, projetos e ações precisam ser reinventadas e refundadas. A universidade precisa não só fazer a sua parte, mas também mobilizar com seus debates que são transdisciplinares, seus conhecimentos produzidos nos mais diversos níveis e seus profissionais formados nas mais diversas áreas as forças sociais a desempenhar tarefas e missões que efetivem um projeto de sociedade diferente do que aí está. Nesse ínterim está muito distante do que efetivamente precisa ser feito, porque perdeu liderança, protagonismo e energias ao longo de sua história. Até cursos de humanidades não cumprem seu papel com atividades de extensão ou de intervenção social junto às comunidades e seus moradores por causa da extrema burocratização das instituições e do profundo fosso que separa a universidade do conjunto da sociedade. Sem contar o desvio de recursos e pessoas que deveriam atender as juventudes pernambucanas indo para o ralo ou para os bolsos individuais de alguns espertalhões. A humanização não pode ser circunscrita à teoria.
 Não se pode esperar que o próximo crime nas mesmas circunstâncias tome conta das manchetes de jornais para que façamos algo. È preciso existir criatividade, compromisso público, gestões integradas eficientes e uma agenda positiva permanente no sentido de construir saídas para essa barbárie cotidiana a que todos nós estamos submetidos e na qual podemos ser também vitimizados.
Tantas pessoas como nós faremos ações para colaborar, ficando também à disposição da família de Samambaia para sermos convocados em qualquer dia, horário ou ocasiões em que se fizerem necessárias e para o que for preciso.
Quem souber informações que podem ajudar a elucidar o assassinato do estudante Samambaia que colabore com as autoridades. Não podemos nos omitir, nunca, pois senão aí estaremos sendo cúmplices ao alimentarmos a lógica do não-reconhecimento do outro com sua banalização e hipocrisia. Vamos adiante! A perda da vida de Samambaia não pode ser em vão!

*É educador, pesquisador, escritor e documentarista. E-mail: otaviomachado3@yahoo.com.br