quinta-feira, 15 de novembro de 2012

OPINIÃO: UMA GESTÃO DO DCE PARA CHAMAR DE SUA (Por Otávio Luiz Machado)



UMA GESTÃO DO DCE PARA CHAMAR DE SUA: UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAAMBUCO (UNICAP), NOVEMBRO DE 2012 – OU OS NOVOS CIRCUITOS JUVENIS EM RECIFE
Por Otávio Luiz Machado*

Quem esteve na posse do DCE da UNICAP (para a gestão 2012-2013) presenciou um ato simples do ponto de vista de não trazer a pompa da utilização de um aparato de cerimonial que mais serve para impressionar através de detalhes requintados do que para marcar acadêmica e politicamente uma atividade que se inicia em prol do conjunto dos estudantes.
Embora o DCE que falamos seja o da UNICAP, é fundamental  dizer que os mais diversos movimentos que compõem a nova gestão representam um conjunto de movimentos juvenis da cidade de Recife, porque ali estão nomes que participam de coletivos contra o aumento das passagens, contra o machismo e a homofobia, a favor dos moradores das comunidades periféricas que sofreram injustiças etc., sem contar o respaldo que tiveram na sua atuação em vários protestos públicos em 2012, quando puderam contracenar, se organizar e articular com os demais movimentos estudantis das mais diversas universidades, em especial da UFRPE e da UFPE. 



A posse dessas pessoas do DCE da UNICAP foi num auditório que mais lembra uma sala de aula, sem apelos, exageros ou  grandes formalidades, onde todos puderam se sentir a vontade para chegar perto de quem queria, o que mais uma vez aponta que a gestão será de estudantes para estudantes conforme a proposta de campanha, que os membros da entidade poderão continuar ser localizadas para dar satisfação do seu trabalho e que legitimamente a UNICAP tem uma entidade única para defender em conjunto a demanda das demais entidades da instituição. Sinaliza que cada estudante ou cada setor de professores ou funcionários que queiram ter o apoio dos estudantes nas horas que precisar poderão convocar o DCE sem alarde, pois ele existe, é unificado e tem muitos desafios pela frente.  
Na hora que o DCE da UNICAP tomava posse, coincidentemente os estudantes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) ocupavam naquele momento a reitoria da instituição por não aceitar que a reitora indicada naquela outra instituição assumisse, considerando que nas eleições da comunidade universitária ela tinha ficado em último lugar, sendo indicada mesmo assim para o cargo em detrimento da vontade da comunidade.
Em várias partes do mundo a "indignação" toma conta, com grandes mobilizações compostas por muitas juventudes, que tomam o espaço público para que sua voz e seus gestos façam toda a diferença. A semana foi marcada por vários protestos públicos, principalmente na Europa. As imagens de milhares pessoas que sequer se conhecem reunidas nos mais diversos pontos com várias palavras de ordem é um fenômeno social que precisamos ter mais instrumentais teóricos para analisar, porque o desafio de compreender a multiplicidade de bandeiras e de agrupamentos reunidos é enorme. A apatia política é deixada de lado mesmo numa luta de propostas não totalmente definidas e sem sistematicidade, sem lideranças assumidas ou escolhidas ou diálogo a quem que seja no comando dos governos. Só aparece ali para "receber" os manifestantes a força policial, numa desmedida repressão.
Como “essas coincidências nunca são fortuitas”, buscando na frase de uma professora que me fez uma saudação quando estive ministrando uma palestra na Universidade Federal Fluminense (UFF) anos atrás, para reforçar o meu argumento que o DCE da UNICAP assume numa conjuntura nacional onde o movimento estudantil brasileiro e as juventudes no mundo tem dados respostas em vários momentos em que a situação assim exige,  sem contar a conjuntura local em que os estudantes – principalmente os nomes que assumem o DCE da UNICAP – estiveram nos protestos públicos em 2012 nos mais diversos locais e das mais diferentes matizes.
No contexto mais específico da UNICAP, os membros que assumem o DCE estiveram por cerca de um ano também dando respostas nas reivindicações mais específicas dos estudantes, como é o caso da climatização das salas de aula, ao mesmo tempo em que trabalharam duro para reconstruir o DCE, cuja sigla estava desacreditada e apagada por ali, sendo o próprio processo eleitoral tão bem representado pela chapa CONSTRUÇÃO COLETIVA que a chama foi acesa e uma esperança renovada despertou a estudantada.
Mais especificamente sobre a posse do DCE, tentarei resumir o que contracenamos. 
A Coordenação dos trabalhos ficaram sob a responsabilidade da estudante de Matemática, Flávia, que foi da comissão eleitoral durante o processo de disputas que culminaram com vitória da chapa CONSTRUÇÃO COLETIVA em cima da VIRAÇÃO.
Foram chamados para compor a mesa de posse os estudantes que representavam o conjunto de nomes que fazem parte da gestão empossada, Pedro Josephi e Marcus Vinícius, a Coordenadora de Graduação, Professora Verônica, o ex-aluno da UNICAP e ex-Presidente do DCE nos anos 1980, Adelson Gomes, e o ex-aluno da UFPE e ex-preso político Edval Nunes Cajá.
O vídeo com as falas iniciais podem ser acessadas aqui:



         A Coordenadora de Graduação, que na ocasião representava o Reitor da UNICAP, disse em nome da instituição estar aberta “ao diálogo e à parceria” com o DCE “a partir de agora”, dando os melhores votos para que o grupo definitivamente tenham uma excelente gestão que “atenda aos anseios de sua representação”.
         Verônica  também algo que vai de encontro às propostas da nova gestão do DCE, que é a  “representatividade dos estudantes nos colegiados dos cursos”, o que na prática significa ter os estudantes participando das decisões importantes da Universidade, tendo voz e vez.
Em seguida, o ex-Presidente do DCE da Unicap na gestão 1980-81 começou a falar que gostaria de dar “um testemunho do que foi a nossa luta aqui nessa universidade da minha geração”.  Como alguém que trouxe a história do recomeço do movimento estudantil a partir dos anos 1975-76, inclusive participando da reconstrução das entidades estudantis na UNICAP, sua fala nos mostra o quadro que se encontrava até então: “Quando entramos na universidade todos os D.As (Diretórios Acadêmicos) e o DCE (Diretório Central dos Estudantes) tinham sido fechados e não havia nenhuma representação estudantil” e “nas salas de aula poucos estudantes ousavam dialogar, conversar ou questionar os professores”.
Adelson citou o caso de grandes mobilização do período, como uma greve de vinte dias à época contra o aumento  abusivo das mensalidades e a mobilização em defesa da vida do estudante da UFPE Cajá, que se encontrava preso e havia sido torturado na Polícia Federal. 
Adelson passava nas salas de aulas convocando os estudantes quando da prisão de Cajá “para defender a vida e combater a tortura no nosso País”,  o que conseguiu, pois “os estudantes romperam o medo e foram à assembleia”. Foi com esses exemplos de que é preciso ter coragem para romper o medo e que a participação política precisa estar presente para mudar as instituições e do País que sua saudação foi muito elucidativa e buscar passar o ânimo necessário àqueles que agora começavam uma nova jornada com o DCE.
Em seguida a Cajá foi dada a palavra, que falou da importância daquele momento de posse do DCE, pois significava “a culminância da participação política” com a possibilidade do estudante participar da eleição diretamente, considerando que nos meados dos anos 1970 ainda era prática em algumas universidades (como a UFPE) ter eleições indiretas para o DCE como ele mesmo analisou na sua fala.
Cajá falou de sua participação no primeiro ENCONTRO NACIONAL DOS ESTUDANTES (ENE), que aconreceu no Rio de Janeiro na segunda metade da década de 1970, cujo objetivo principal era a reorganização do movimento estudantil. Ele historiou até o então congresso de reconstrução da Uniao Nacional dos Estudantes, que aconteceu em 1979 na cidade de Salvador-BA, que considera “um ato de desafio à ditadura”.
A fala de Cajá tentou o tempo todo fazer uma relação entre o ontem e o hoje de uma forma bem articulada, principalmente chamando a atenção que o desafio da participação política ainda é grande, pois “não justifica cada pessoa ficar no seu mundinho” diante do “período rico da vida”, que é a condição de estudante ou condição estudantil. Também foi importante Cajá trazer os desafios atuais do direito à memória, à verdade e à justiça, indo ao ponto com uma pergunta fulcral aos que acreditam na necessidade de não permitimos afrontas à dignidade humana:  “Se não formos capazes de conhecer as injustiças que acontecem  com as outras pessoas, que serem humanos somos nós?”
As duas falas seguintes, que fecham a cerimônia de posse do DCE da UNICAP foram de estudantes que compõem a direção da entidade então empossada.
O primeiro a falar, o estudante de Direito Pedro Josephi, fez um discurso contundente sobre aquilo que nas suas próprias palavras são PRINCÍPIOS NORTEADORES DA GESTÃO. Sua fala revela a pluralidade, o espírito de luta, o comprometimento crítico com mensagem que dirige aos seus interlocutores, a generosidade, a sintonia com os demais movimentos da sociedade, e, acima de tudo, a coerência. É difícil ouvir um discurso com todos estes  elementos juntos,  articulados e bem construídos numa linguagem clara, direta, pontual , consistente e convincente. É um dos discursos mais representativos que já presenciei.
A fala de Pedro Josephi resgatou o processo de reconstrução do DCE da UNICAP  e a construção da CONSTRUÇÃO COLETIVA, o que só indica que os nomes não caíram ali de paraquedas, que a atual gestão não foi imposta de fora para dentro e que a entidade não será um instrumento para produzir benefícios para poucos mesmo sendo uma entidade que deva ter como DEVER atender ao conjunto e ao interesse coletivo.
Embora tenha assumido na última hora o lugar da estudante Luiza (não é a Luiza que estava no Canadá, que ficou famosa nas redes sociais) para proferir o discurso, Pedro não deixou de tratar do “papel simbólico e político das mulheres nesse espaço” (o do DCE), sem contar que foi um representante que esteve à altura na defesa da diversidade no DCE e na Universidade.
Para ele, enquanto existe um descrédito nas organizações de massa do movimento estudantil, que inclusive produz uma autofagia ou até mesmo  uma auto-destruição do movimento estudantil, “nós conseguimos construir um grupo unitário”, sendo “um desafio que não começou esse ano e começou lá atrás”.
Foi assim que Pedro definiu que “esse campo assumiu a responsabilidade histórica da reabertura do DCE”. Ao dizer  que “através desse protagonismo  nos credenciamos”,  situou aos presentes que o nome da chapa vencedora é “CONSTRUÇÃO COLETIVA na perspectiva de trazer os estudantes” (para o movimento estudantil), permitindo “que os espaços do movimento sejam mais horizontais” e “uma construção efetivamente coletiva”.
Ao dizer que “estamos construindo o que os estudantes querem para o DCE”, “nós nos colocamos à disposição da comunidade”, “assumimos uma gestão de compromissos sérios” e que os 1.045 votos da chapa eram  “voto conquistado e de confiança”,  quer mostrar que “um fio de esperança de uma entidade forte para interferir na vida das pessoas” voltou à UNICAP.
Pedro disse que a responsabilidade do DCE vai além dos estudantes, porque é um compromisso com a universidade como um todo, como é o caso do “compromisso de debater a educação na universidade”, revelar as “inúmeras contradições na universidade privada” e se “somar ao conjunto do corpo de professores” ao “ocupar os espaços de colegiado e conselhos”.
Duas questões magníficas Pedro levantou: “Será que vamos nos isolar cada vez mais como estudantes?”; “Se não forem nós a assumir esse papel, que assumirá?”.  Aqui se referia em chamar os professores para a luta, também, pois “é a luta que muda, o resto ilude”.
Em resumo, a fala de Pedro também enumerou algumas outras questões sobre o DCE e sua proposta:
- “Voz ativa dentro da universidade”;
- “Ocupar esse vácuo deixando pelo movimento estudantil, é uma responsabilidade histórica”;
- Que as pessoas “possam ter o direito de ser cidadãos”;
- “Precisamos combater o racismo dentro da universidade”;
- “Precisamos promover a emancipação social e política da comunidade LGBT na Universidade”;
- “Nós não vamos recuar no debate sobre as opressões na universidade”
Pelo que puderam perceber, a fala de Pedro Josephi foi muita rica, a ponto do outro membro do DCE começar sua fala dizendo que “não sobrou nada para falar”. Mas mesmo assim a fala de Marcos Vinícius conseguir percorrer vários outros pontos importantes que também  foram falados, reforçando de forma primorosa o evento, que foi encerrado após a sua fala.
Marcus Vinícius disse ser “essencial a participação nossa na universidade como estudante”, sendo sentida durante a campanha  que a comunidade apontava para a necessidade de “ter voz e vontade de se expressar”, o que não era correspondido, porque o “DCE tinha todo um espaço para atuar e não atuava”. Mesmo nessas condições, “todo mundo nessa comunidade enxerga a importância de um DCE”, porque os desafios que ele apontou são enormes.
O  espaço vazio deixado pelas gestões do DCE anteriormente indica que existe “muito espaço para lutar”, que é preciso “fazer com que a universidade se mexa” e “batalhar para que os cursos tenham Diretório Acadêmico”.  “Esse espaço existe”, referindo-se a fazer as coisas e dar credibilidade ao movimento estudantil, fazendo com que aumente o “nível de consciência dam comunidade acadêmica”.
Eis mais alguns pontos levantados na fala de Marcus Vinícius:
- Reconstruir a estrutura do DCE, que “tem uma sede deteriorada”;
- “Fazer um seminário de formação”;
- Reorganizar as entidades de base, porque “dos cerca de 30 cursos, só uns 10 estão organizados”;
- Ampliar os direitos dos bolsistas do Prouni, como o não-pagamento de taxas, “como se a isenção da mensalidade resolvesse o problema de acesso ao ensino superior”, o que é percebido na enorme dificuldades de acompanhamento ou de permanência nos cursos mesmo sem o pagamento das mensalidades;
-  Cursar “uma universidade com mais bolsas é melhor”, o que significa a necessidade de ampliar o número de bolsas para atingir ainda mais o conjunto dos estudantes, porque o déficit é grande;
- Em referente à ampliação do acesso à biblioteca, disse que a UNICAP “se vangloria como tendo uma das melhores bibliotecas, mas o estudante só pode pegar quatro (4) livros”.
Pelo que pude trazer nas linhas anteriores, os estudantes da UNICAP podem ter uma gestão do DCE para chamar de sua. Quem vai garantir em definitivo o sucesso da gestão será o conjunto dos estudantes, desde que se envolvam e atendam os chamados do DCE, que estejam sempre cobrando posicionamentos da entidade durante todo o tempo e não tenham medo ou vergonha de participar de tudo aquilo que puderem. Só assim a coisa anda. 

 *É educador, pesquisador, escritor e documentarista. E-mail: otaviomachado3@yahoo.com.br

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

OPINIÃO: Uma noite em nome da Verdade, da Memória e da Justiça: O significado simbólico e político da rematrícula de Odijas Carvalho na UFRPE (PARTE 3) (Por Otávio Luiz Machado)



ARTIGO: UMA NOITE EM NOME DA VERDADE, DA MEMÓRIA E DA JUSTIÇAO significado simbólico e político da rematrícula de Odijas Carvalho na UFRPE (PARTE 3)

Por Otávio Luiz Machado*
        
A última parte da série “O significado simbólico e político da rematrícula de Odijas Carvalho na UFRPE” é dedicada exclusiva à análise das falas dos convidados e autoridades estudantis, docentes e técnicas da agora centenária instituição educativa.
Os textos anteriores estão aqui:




Uma verdadeira noite em nome da Verdade, da Memória e da Justiça foi o que todos nós contracenamos na UFPE no dia 09 de novembro de 2012. Muitas falam representativas incríveis marcaram a ocasião, vindas de nomes de diversas gerações.
A grande ausência foi, sem dúvida, o da viúva de Odijas, Maria Ivone, que por motivo de saúde não pode estar ali vivenciando uma nova imagem pública que está sendo reconstruída sobre seu marido, que tentou ser deturpada durante tantos anos pela ditadura, seus seguidores, apoiadores e colaboradores.
A fala inicial ficou a cargo da Coordenadora Geral do DCE da UFRPE Odijas Carvalho, Liliane Monteiro, considerando que foi o corpo discente o principal anfitrião, porque a solicitação dessa rematrícula simbólica partiu dos próprios estudantes.
Liliane falou que “os estudantes fazem parte dessa história”, que era preciso o “reconhecimento do Estado e da Universidade”, moldando uma opinião que pode-se dizer digna de uma unanimidade naquele recinto: “que isso seja exemplo”. Foi pedido pela estudante a punição dos torturadores após a comissão da verdade.
Uma fala inicial de Marta de Castro Souza, sobrinha de Odijas Carvalho, também foi emocionante. Referiu-se que não só a história da luta de Odijas e sua própria biografia foi “deturpada pelo Estado brasileiro”, mas o silêncio sobre o que aconteceu consegue trazer o mesmo resultado.
A questão levantada nas primeiras falas – e sempre retomada até o fim da solenidade - era sobre quem eram os criminosos no período da ditadura civil-militar de 1964: os estudantes ou os torturadores? Também foi muito no tom de “que a sociedade conheça a história da universidade”.
Em seguida, a palavra foi dado à Reitora da UFRPE, Maria José Sena, que além de fazer considerações sobre o significado do ato, passou a fazer os encaminhamentos formais para a rematrícula de Odijas.
A Reitora disse nesse momento que “a Universidade Rural de Pernambuco está vivendo hoje um dia especial”, ressaltando mais uma vez que a homenagem à Odijas com sua rematrícula simbólica era algo “emocionante e justo”.
A partir daí Ana Cristina (Chefe do Controle Acadêmico), Mônica Lins (Pró-Reitora de Ensino de Graduação) e Renato (do setor de Arquivística). Após a leitura da ata de rematrícula, simbolicmente é chamado pela reitora o nome de Odijas Carvalho, sendo um momento em que todos no auditório falam em uma só voz “Presente!”.
A representante da família, Marta de Souza, então lê uma carta da viúva de Odijas, Ivone Loureiro, que pode ser resumida na seguinte frase: “Odijas continua com suas ideias e su exemplo”.
Marta disse se sentir “muito orgulhosa de representar a família de Odijas”, mesmo não sendo alguém que ela tenha convivido bastante em vida porque ela tinha apenas dois anos quando ele foi assassinado. Não teve dúvida de afirmar que “pela sua história eu sei quem é Odijas”, indo além, “um brasileiro que queria o melhor para o Brasil”.
Em seguida são chamados para compor a mesa nomes como Pedro Laurentino ex-Presidente do DCE da UFRPE no final dos anos 1970 e primeiro presidente da reconstrução da União dos Estudantes de Pernambuco, a UEP, em 1980), Valmir Costa (do movimento estudantil de 1968), Juarez Gomes (Presidente do DCE em 1997), Adelson Borba (Presidente do DCE da Unicap nos anos 1980), Edval Nunes Cajá (ex-preso político e militante do movimento estudantil do final dos anos 1970), Marcelo Santa Cruz (que foi do movimento estudantil da Faculdade de Direito da UFPE no final dos anos 1960), Ivan Seixas (ex-preso político e da Comissao Estadual da Memória de São Paulo), Amparo Araújo (ex-presa política e Secretária de Direitos Humanos e Segurança Cidadã da Prefeitura de Recife) e outros.
O primeiro dessas pessoas a falar foi Pedro Laurentino, que começou fala fazendo uma saudação com “saúdo os estudantes combativos do DCE Odijas Carvalho”, afirmando que “a Universidade Rural sempre foi um celeiro de combatentes e abnegados”. Fez fortes elogios à Reitoria Maria José pela sua atitude ousada e digna.
Pedro Laurentino relembrou os tempos de estudantes: “Na primeira semana que entrei o nome de Odijas circulava aqui como um estudante brutalmente assassinado”. Com o ato disse que ele “volta a ser estudante”, que seguramente mais uma vez só demonstrava que “quem está enterrado em nosso País é o fascismo”, pois “na minha época tinha reitores fascistas”.
Muito emocionado, fez mais um balanço do ato ao dizer que “deixaria qualquer compromisso do meu Estado para a vir a esse evento”. Veio da capital do Piauí especialmente para esse momento, refletindo que “passa um filme bom na nossa cabeça porque nós não morremos”, dando sua presença e aos demais companheiros e companheiras sendo o de “uma geração de combatentes que se junta a essa geração”.
Ao final arrancou boas gargalhadas dos presentes ao falar algo referindo-se à famosa música de Cazuza que dizia que seus “heróis morreram de overdose”: “Meus heróis não morreram de overdose, morreram na luta!”.
Esse ano fizemos uma entrevista com ele, que pode ser lida aqui:

Em seguida, também tivemos uma outra verdadeira “aula”, que foi a fala de Ivan Seixas. Ele começou resgatando o período anterior à ditadura civil-militar de 1964 – que é algo pouco comum àqueles que tratam de fazer uma análise mais acurado do golpe -, indo ao ponto importante que fez parte do espectro daqueles que vivenciaram outra fase macabra da nossa história política: “nenhum teve a ousadia de cobrar os crimes da ditadura do Estado Novo”.
Para ele, esse ato fato em nome do apaziguamento e da paz nacional contribuíram de sobremaneira para o golpe de 1964. É importante apontarmos que um golpe de direita reacionário situava como um “fantasma” desde o suicídio de Vargas (em agosto de 1954). As inúmeras tentativas de inviabilização da candidatura de JK (na qual setores conservadores apostavam que se ele fosse eleito não tomaria posse, se isso acontecesse seria derrubado), a “crise” da renúncia de Jânio Quadros, a tentativa de impedir a assunção do cargo por João Goulart (Jango) e os inúmeros sobressaltos em seu governo foram só alguns dos pontos que podemos levantar para mostrar a linha tênue que os golpistas tinham.
Ivan Seixas considerou que a democracia brasileira está num patamar avançado porque a geração de perseguidos pelo golpe de 1964 (1964-1985) não entrou no mesmo erro da anterior. Os que passaram nas cadeias, os que lutaram contra o golpe de 1964 não poderia deixar de cobrar, o que foi feito ainda naquele período, pois segundo ele “relatamos os métodos de tortura”.
Disse que “a garantia para que não aja outra tortura é apontar os torturadores”, elogiando osa “escrachos” promovidos pelo Levante Popular da Juventude em todo o País indo às casas ou locais de trabalho dos torturadores da ditadura para denunciá-los, inclusive mostrando que ali “não mora um bom velhinho, mas um torturador sanguinário”. O que foi falado no evento é que a pessoa não deixou de ser torturador, ela continua nessa condição mesmo após esse período todo.
Ivan não poderia deixar de falar do evento que participava: “é um tipo de homenagem que é de uma grandeza, que é recuperar a imagem daquele que foi colocado nos jornais como terrorista pela ditadura”. É importante dizer que isso foi algo foram do normal, pois “exacraram Odijas” sem se preocupar que “aquele indivíduo tinha uma família”, que era “um defensor da liberdade” e que “esse resgate é muito importante” porque aquelas pessoas que lutavam contra a ditadura “não lutaram contra o seu País”.
O Ivan também não deixou de falar de sua própria experiência, pois foi preso juntamente com seu pai na época da ditadura: “me orgulho muito do meu pai, da minha mãe e das minhas duas irmãs que foram presas”.
Num balanço emocionante novamente sobre o evento, Ivan disse que “me orgulho muito de ser dessa geração”, “me orgulho da Reitora de ter a dignidade” da verdadeira homenagem à Odijas, pois “essa atitude é muito corajosa e muito importante para a democracia”.
Ao dizer com o conhecimento de quem também compartilhava dos mesmos ideais de Odijas e mais uma vez que a homenagem ali prestada era para “um lutador pela liberdade”, também sugeriu que “um monumento para dar forma a essa homenagem” poderia ser um passo seguinte a ser dado pela UFRPE para aprofundar o resgate da memória histórica.
Fez um balanço de sua trajetória na resistência à ditadura ao dizer que “nós nos orgulhamos do que fizemos”, perguntando o seguinte: “Onde estão os torturadores que torturaram essas pessoas? A resposta dele é que os torturadores “fogem como ratos”, sem se referir aos que hoje talvez nem sejam conhecidos como ex-torturador, porque para ele “quem é torturador é torturador”.
Disse que haviam “aqui dentro dessa universidade” policiais para vigiar e perseguir estudantes, porque “aqui funcionava uma AESI”, que eram as assessorias especiais de segurança e informação responsáveis por coletas informações sobre qualquer pessoa que dentro da universidade fosse contra o regime para que tais dados fossem repassados diretamente para os demais órgãos da repressão para que isso fosse utilizado na perseguição das pessoas.
Sua fala foi didática ao considerar “que a verdade seja contada e seja reparada”, pois “o silêncio da ditadura de Vargas levou a outra ditadura”.. Situou um pouco a situação das universidades, considerando que a a ditadura permitiu que “canalhas medíocres” fossem reitor da UFRPE, porque para ele “a ditadura precisa de gente medíocre, de gente que não pensava”.
Ao final disse que é preciso “ter a grandeza de defender aqueles que lutam pela democracia” e que “Odijas não era um terrorista, era um combatente revolucionário”. Sua saudação mais uma vez mobilizou a todos os presentes que falaram com ele junto o seguinte: “Odijas, você está presente, agora e sempre!”.
O representante da Comissão da Verdade de Pernambuco Manoel Morais falou da desigualdade social que ainda perdura no Estado de Pernambuco e no Brasil, citando o caso da Zonata da Mata onde aas “desigualdades se misturam”.
Falou que essa mesma desigualdade que persiste no Brasil foi uma das bandeiras que Odijas abraçou e pretendia reverter essa situação, porque “ele abraçou uma causa de transformação do nosso Estado”.
Para demonstrar isso, é preciso “trazer à luz do dia uma verdade que não foi revelada”, sendo a verdadeira verdade do que aconteceu com Odijas, qu até hoje é oficialmente nos documentos que falam da sua morte como “embolia pulmonar” e não das torturas que quebraram todo o seu corpo..
Para resolver todas essas questão fica “o desafio de nos politizarmos”, sendo a comissão da verdade algo que contribui, mas não substitui a luta dos movimentos sociais, dos movimentos estudantis, tendo ainda mais , um aliado histórico: “nós temos a convicção de Odijas”.
A Secretária de Direitos Humanos e Segurança Cidadã do Recife e militante dos direitos humanos, Amparo Araujo, que fez uma fala mais voltada às juventudes presentes, disse o quanto é importante “caminhar junto com essa garotada”, principalmente “que eles continuem” e deem “contiuidade a esse trabalho e a essa luta” que Odijas e tantos outros fizeram anos atrás.
A fala de Valmir Costa, que foi presidente do D.a. de Veterinária em 1968, disse ter vivido “o momento mais importante da minha vida nesta universidade”.
Disse que queria o que todos de sua geração pretendia, que era “ser um técnico e ajudar o País” , embora nas suas palavras “tivemos o castigo de entrar na universidade no período da ditura”, “um golpe planejado pelas elites dominantes deste País”.
Com a necessidade de derrubada da ditadura, que foi um “desafio que apareceu em primeiro lugar”, ele e sua geração foram para o enfrentamento de forma desigual contra a ditadura.
Conta que na véspera de sua colação de grau recebeu uma notícia vinda da advogada Mércia para que ele não comparecesse à cerimônia, porque ela tinha informações de que um plano para sequestrá-lo nesse dia seria colocado em prática. Ele não foi, mesmo já tendo sua família pronta para estar lá para festejar a vitória acadêmica e pessoal de seu filho. Um constrangimento a mais que teve de sofrer por causa da repressão.
Ao avaliar que a coisa mais importante da sua vida foi participar da resistência à ditadura, mesmo “um pouco inocente, mas muito consciente”, também considerou que estar ali contando sua história “é a minha vingança”, porque “esse é um ato que aprofunda a democracia”, sem deixar de transparecer e afirmar “eu estou muito emocionado”.
Em seguida foi a vez de Edval Nunes Cajá, que foi preso político e lutou pela redemocratização do País, que começou falando “essa é uma noite memorável do ponto de vista da luta para resgatar a história”, sendo enfático ao dizer que “aqui esse resgate está sendo feito pelos próprios lutadores sociais”.
Não poupou elogios aos responsáveis por aquele ato estar acontecendo: “essa noite o DCE Odijas Carvalho presta não só uma homenagem, mas contribui com o exemplo prático de como resgatar essa história”, tendo a expectativa de “que essa verdade seja para justamente se fazer Justiça nesse Pais”.
Cajá levantou uma questão também muito importante, que é materializar a homenagem num monumento à Odijas e aos que tombaram para que a democracia no Brasil fosse restabelecida.
Juarez Gomes (Presidente do DCE em 1997), nas palavras que proferiu, disse que “ninguém numa luta por um passado negro pode vacilar”, considerando que “existe resquícios muito fortes para se voltar ao passado”. Referindo-se em especial à Odijas, disse “que dentro de sai tinha um poder revolucionário”, que enfrentou a tortura com altivez, porque “o homem se torna pequenininho diante da tortura”. A dignidade de Odijas de enfrentar toda essa adversidade sem se entregar só mostrava o homem digno e um autêntico lutador brasileiro que muito contribuiu para o retorno da democracia.
         O advogado e defensor dos direitos humanos, Marcelo Santa Cruz, ao se referir à cerimônia presente disse que ela contribuía para um “dia inesquecível nessa Universidade”, referindo-se também à luta dos estudantes na universidade, que “sempre deu exemplos de combatividade”.
Também falou de sua experiência no movimento estudantil, principalmente do seu desligamento por duas vezes de uma instituição de ensino porque lutava pela democracia. A primeira foi na Faculdade de Direito da UFPE, em 1969 pelo decreto-lei 477, quando ele e seus colegas ficaram impedidos de estudar por um prazo de três anos após o desligamento de sua matrícula.
Foi então estudar numa universidade de Lisboa, Portugal, sendo também novamente desligado por pressão do governo brasileiro, que se associou ao ditador Manoel Caetano de Portugal, para perseguir os estudantes brasileiros que mal começaram a estudar e receberam o “convite” para se desligar da universidade em 78 horas sob pena de serem extraditados para o Brasil.
Também falou dos brasileiros banidos do País, que se refugiaram em países como a França, como foi o seu caso, quando foi “lá tomamos conhecimento do assassinato de Odijas de Carvalho”.
Conclamou que todas as universidades que cometeram essa injustiça de expulsar seus membros por questões de repressão que fizessem uma homenagem simbólica como a própria UFRPE estava fazendo, tudo em nome da memória, da verdade e da justiça.
Adelson Gomes, que foi do movimento estudantil dos anos 1980, disse que “a perseguição era diuturna a todos os estudantes”. Virando-se para a Reitora, disse: “Reitora, que diferença dos nossos reitores à época”.
Não deixou passar a ocasião para levantar a seguinte questão: “Como vamos resolver o problema de milhões sem passar pela política?”
         Pedro Lima, que foi da turma de Odijas na UFRPE, também prestou sua homenagem ao colega. Falou que teve “a honra de conviver com ele o tempo todo dele na Universidade”, atestando que “era um rapaz querido, um namorador danado”. Falou que em diversos momentos “levava ele para Garanhuns na marra”, pois ficava muito exposto à repressão e fazia assim para ajudar seu amigo. Algumas vezes o agora cantor famoso Geraldo Azevedo também ia com eles. Disse que “eu vi aqui nesse auditório os maiores debates nessa universidade”, numa fala emocionada após a sua volta para homenagear seu amigo querido.
Assim que foram encerradas as falas, a organização do evento entregou a cada convidado (a) que se encontrava na mesa principal um cartaz do evento para que todos tivessem mais uma boa lembrança do evento.
A Reitora entregou uma cópia da ata de rematrícula à representante da família de Odijas, tendo o evento encerrado com os versos feitos por Pedro Laurentino especialmente para a ocasião. Antes de ler, também disse: “eu milito hoje com as palavras e os versos”.
O texto ficou longo, mas aqui trago tudo que foi falado de uma forma reduzida com os principais trechos centrais da fala de cada um (a). Foi feito na tranquilidade do final da noite de domingo (11 de novembro de 2012) com muito amor, atenção e carinho diante de tudo o que contracenei na UFRPE, que foi um dos eventos mais ricos e representativos que estive.

*É educador, pesquisador, escritor e documentarista. E-mail: otaviomachado3@yahoo.com.br